O curioso álbum de Natal de Cyndi Lauper
ABC do ABC
Lançado em 1998, “Merry Christmas... Have a Nice Life” ressurge como trilha sonora alternativa para um Natal que pede pausa e intimismo
Nesta véspera de Natal, quando playlists se repetem e clássicos retornam quase por obrigação, ao topo das paradas, um álbum lançado há mais de duas décadas volta a chamar atenção e fazer sentido. Merry Christmas… Have a Nice Life, de Cyndi Lauper, não foi concebido para o consumo imediato nem para tocar em loop em shoppings ou rádios. Justamente por isso, encontra hoje seu espaço natural entre quem busca um Natal menos previsível.
Lançado em 1998, o disco ocupa um lugar curioso na discografia de Cyndi Lauper. É um álbum natalino que se recusa a ser festivo no sentido convencional. Em vez de euforia, entrega introspecção. Em vez de grandiosidade, aposta em intimidade. Em datas como esta, em que o silêncio e a memória também fazem parte da celebração, a obra ganha uma nova leitura.
Ao contrário de outros projetos do gênero, Cyndi Lauper optou por equilibrar canções tradicionais com composições autorais, criando um repertório que fala de pertencimento, passagem do tempo e afetos imperfeitos.
Parte dos vocais, inclusive, foi gravada dentro de um armário de cedro, escolhido pela reverberação natural, detalhe que se reflete no clima caseiro e quase confessional do álbum. Merry Christmas… Have a Nice Life não tenta competir com grandes produções natalinas. Ele se aproxima mais de um diário sonoro do que de um espetáculo.
Faixas como Early Christmas Morning e December Child tratam o Natal como um tempo de espera e observação, enquanto releituras de clássicos como Silent Night surgem de forma contida, sem excessos vocais ou arranjos exuberantes. Até mesmo músicas mais animadas ganham contornos suaves, quase contemplativos.
Na época do lançamento, o disco teve recepção crítica positiva, mas desempenho comercial discreto. Com o tempo, no entanto, ganhou status de obra cult, especialmente entre ouvintes que veem o Natal como um momento de pausa e não apenas de celebração ruidosa.
Neste 24 de dezembro, quando o dia costuma ser atravessado por expectativas, encontros e ausências, Merry Christmas… Have a Nice Life oferece uma trilha sonora que aceita contradições. Ele não exige alegria plena nem celebração constante. Apenas acompanha um Natal possível, imperfeito e humano, exatamente como a data deve ser.
A recepção dos críticos de música foi em maioria favorável, com resenhas que elogiaram o repertório e os vocais, tais como a do site AllMusic, que avaliou com três estrelas de cinco e do jornal Los Angeles Times, com avaliação de três estrelas e meia de quatro.
Comercialmente, vendeu 26.000 cópias nos Estados Unidos, de acordo com a Nielsen SoundScan. Mas Cyndi estava tendo inúmeros problemas com a sua gravadora, assim como ela escreveu em sua biografia:
"De qualquer forma, voltando a 1997. Declyn Wallace Lauper Thornton nasceu em novembro daquele ano. Nós demos esse nome a ele em homenagem a Elvis Costello (cujo primeiro nome é Declan). É aquilo que dizem mesmo: toda a sua perspectiva muda quando você tem um filho. Depois que ele nasceu, tive uma reunião com o pessoal da gravadora em Nova York e me apresentaram um novo reponsável pelo departamento de Artistas e Repertório, Peter Asher. Mas o diretor era o mesmo cara que conheci em Paris antes de engravidar, que me disse que tudo ficaria bem. Não dá para ouvir uma mentira duas vezes. Eu tinha mais um álbum no meu contrato e disse: “Olha, se você não vai fazer nada para promovê-lo, você pode muito bem me deixar ir. Não quero passar por isso novamente. Trabalhei muito duro, tentei muito, fiz uma ótima imagem, tentei fazer uma ótima capa para o álbum, mas nada disso importa se vocês não vão promovê-lo”. E esse cara disse: “Não, dessa vez vamos fazer alguma coisa. Por que você não vai para casa e pensa melhor sobre isso?”, ele estava tentando me apaziguar. Peguei a foto do meu bebê e disse: “Por que você não vai para casa e pensa melhor nisso? Amanhã, quando você estiver se barbeando, olhe para o rosto desse bebê no espelho e diga a ele como a mãe dele precisou conseguir outro emprego, porque você arruinou a carreira dela. Você pode fazer isso comigo, mas não vai fazer isso com meu bebê”. Parecia que Peter ia desmoronar. Ele não conseguia nem acreditar.
Tentei sair, e eles vieram atrás de mim e disseram: “Ok, você só precisa fazer um álbum de Natal”. Esse seria meu último álbum para a Epic e depois eu poderia dar o fora. Eu disse que trabalharia em um disco de Natal porque sempre quis fazer um. Adoro o Natal. E foi assim que aconteceu. Jan voltou para ficar comigo no andar de cima de nossa casa de Connecticut com o filho dela, que tinha 8 ou 9 anos. Tínhamos trabalhado juntas tão bem que era um passo natural continuarmos compondo. Declyn tinha acabado de nascer e uma mulher gentil chamada Dalila cuidava dele. Dec foi um garoto muito incrível. Ele era engraçado e ria muito – um amor. Jan e eu escrevíamos na sala de estar. Fiz muita música boa naquela casa (o que eu considero boa, pelo menos). Escrevi os álbuns Hat Full of Stars e Sisters of Avalon inteiros naquela sala de estar. Mais tarde escrevi Shine lá também.
A casa tem uma vibração muito mágica que faz você se esquecer do tempo e do espaço. Ela é como uma casinha de bonecas, então é divertido escrever lá. David passava com Declyn de vez em quando, enquanto gravávamos o álbum na garagem. O álbum tem uma música chamada “New Year’s Baby (First Lullaby)”, que escrevi para Dec, que pegou o microfone e cantou. É ele que você ouve no solo. Ele achava que estava cantando e até fez uma coisa meio iodelei na música.
Quando o álbum saiu, minha ótima agente publicitária Lisa (que acabou se tornando minha empresária) me colocou no especial de televisão do Rockefeller Center Christmas, quando as luzes da árvore são acesas, para cantar “Early Christmas Morning”. Além disso, eu estava acompanhada de um coro infantil. Todas as criancinhas estavam de cachecol e suéteres de Natal. Foi incrível. Comecei a música sentada no chão, com uma capa branca, tocando o dulcimer, depois tirei a capa e estava com um vestido ao estilo Mamãe Noel de cetim vermelho com crinolina branca por baixo".
Chegou a ter alguns relançamento mudando o título do disco e a capa, mas basicamente com as mesmas faixas.
Em novembro de 2019, ocorreu o lançamento no formato de disco de vinil, na cor verde e com tiragem única de 1.000 unidades. E depois houve outra tiragem em vermelho.










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