#TBTdaCyndiLauper: Matéria traduzida da edição de abril de 1984 da revista Life

    Fundada em 1936, a revista LIFE tornou-se referência em fotojornalismo, documentando os momentos mais importantes do século XX. Da Segunda Guerra Mundial à Corrida Espacial, dos direitos civis aos ícones culturais, cada edição oferece um registro histórico autêntico e em primeira mão — preservado até hoje para colecionadores e compradores de presentes.

    Na edição de abril de 1984, além da capa que anunciava a matéria sobre os piguins da Patagônia, alí no cantinho esquerdo superior da capa, também havia escrito o nome de Cyndi Lauper como a "DIVA ATORTOADA DO ROCK". A gente fica na dúvida se eram fãs ou haters, mas a matéria era simplesmente reveladora, já que mostrava Cyndi em seu ambiente familiar, neste caso, para o mundo pela primeiríssima vez. Acompanhem a matéria traduzida em português:


Cyndi Lauper Espia o Sucesso

DIVA ATORTOADA DO ROCK

    Os olhos cor de avelã, pintados com cores psicodélicas através da janela da limusine; o cabelo num topete tangerina; a voz tão potente quanto sua estatura (um metro e sessenta); e o nome é para ser lembrado. Cyndi Lauper, 30 anos, tem tudo para ser a próxima grande estrela do rock. Seu single "Girls Just Want to Have Fun" está no Top 10; o videoclipe é o mais recente da TV. Enquanto Cyndi solta gritos e soluços em uma mistura eclética de pop em seu álbum de estreia, a garota descolada das ruas do Queens comprova a veracidade do título: Ela é tão incomum (She's so unusual).

Fotos por: Harry Benson

Texto por: Nancy Griffin

    "As pessoas sempre me olharam de um jeito estranho", diz Cyndi. Ela vasculha brechós em busca de suas anáguas e espartilhos de estilo vamp, mas a pose de diva pop é uma brincadeira. "O humor é um ótimo veículo para transmitir uma mensagem", afirma. "Quero dizer algo que seja mais do que apenas bobagem." Para Cyndi, "Girls Just Want to Have Fun" é um hino feminista vibrante: "Espero que faça as mulheres se sentirem livres."

    Na foto que aparece no pequeno quadradinho da página, Cyndi está com sua banda em seu local favorito, o Hot Diggity, uma lanchonete de cachorro-quente. Depois, ela improvisa com seu tecladista, Kenni Hairston (que está abaixo da foto), em seu quarto em Manhattan.

    "Meu processo criativo está intimamente ligado às minhas raízes", diz Cyndi, cuja mãe, Catrine Domenique, criou três filhos pequenos após um divórcio. Seu salário como garçonete era baixo, mas sempre havia música. Cyndi ouvia constantemente os discos da mãe — Eileen Farrell, Louis Armstrong, Mario Lanza. "Ela imitava todos eles", lembra Domenique. Em uma participação especial no videoclipe de "Girls", de Cyndi, sua mãe quebra ovos para o café da manhã e reclama porque a filha não voltou para casa depois de uma noitada. "Minha mãe nunca me calou quando eu queria me expressar", diz Cyndi. "Essa foi a minha salvação."

    Na primeira foto visitando seus avós no Queens (acima), Cyndi dá risadinhas com sua mãe. À esquerda, ela conversa sobre locações em Nova Jersey para seu novo videoclipe, "Time After Time", com membros da equipe e seu namorado e empresário, David Wolff (à direita).

    Na foto menor ao lado da foto dos avós, em uma aula de música em sua antiga escola no Queens, Cyndi lidera uma interpretação a cappella de "Girls". 

    Abaixo: Ela faz uma pausa, emocionada, relembrando o momento no pátio da escola. "Eu me sentia tão sozinha porque minha mãe estava trabalhando."

    Cyndi passou por quatro escolas secundárias — "Fui reprovada em todas" — e um ano miserável na faculdade em Vermont. De volta a Nova York, ela passeava com cavalos no hipódromo de Belmont Park e cantava canções japonesas foneticamente, como uma gueixa em um restaurante. Depois de alguns anos cantando músicas de outros artistas no circuito de clubes de Long Island, ela se inspirou a compor as suas próprias, e formou o grupo de rockabilly Blue Angel. 

    Os críticos se deliciaram com seus números de bebop ousados ​​e baladas românticas, mas as vendas do álbum da banda nunca se concretizaram. O grupo se separou em 1982, e no ano passado (1983) Cyndi conseguiu um contrato para gravação solo e montou uma nova e poderosa banda de apoio. 

    As vendas de She's So Unusual estão indo bem, mas até agora ela não teve tempo para saborear o sucesso. Desde uma turnê pela Europa em janeiro, sua vida tem sido uma correria de shows, aparições na TV e entrevistas. Ela supervisionou cada detalhe de seu novo vídeo (desta vez, um vídeo emocionante, com a mãe como protagonista) e planejou uma turnê no Japão em março. O ritmo frenético "parece muito estranho", diz Cyndi. "Parece que tudo o que eu faço é entrar e sair de limusines." Ela teme que deixar de lado os exercícios vocais diminua seu poder surpreendente. Enquanto isso, o apartamento no East Side que ela divide com David Wolff é uma bagunça de malas, chapéus caindo de caixas, quinquilharias e joias brilhando em todas as superfícies. Vida social? "Eu não tenho", ela suspira. "Às vezes estou tão cansada que não sinto nada." Ela precisa de ajuda. Mas será que uma ex-garota pobre do Queens pode realmente contratar uma faxineira de consciência tranquila? Cyndi anseia por um período sabático para compor e está ansiosa para explorar um som mais experimental com sua banda. Embora cante com toda a sua potência "Money Changes Everything" em seu álbum, ela jura que a prosperidade "não me tornará mais normal". Ela nunca cantará como ninguém.

    Outra opção seria trocar suas anáguas por spandex ou couro, típicos de rainhas do rock: "Você não precisa vender arte como se vende Pontiacs." Ela permanecerá à margem da música; nada de meio-termo para ela. "Minha cabeça não funciona na vertical. Preciso ficar na minha posição mais confortável, que é inclinada."



    O tecladista Kenni Hairston (que aparece na revista ao lado da cama de Cyndi) morreu em 12 de fevereiro de 2017, há exatos 9 anos. Kenni a acompanhou por muito tempo em sua carreira, marjoritariamente nos anos 80 e em sua primeira turnê.

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