Antes do sucesso: como a banda Flyer abriu caminho para o início da carreira de Cyndi Lauper
Em meados de 1972, Cyndi Lauper acreditava que seu futuro estaria nas artes plásticas. Ela havia estudado pintura, mas enfrentava dificuldades financeiras e acadêmicas. Por tirar péssimas notas, deixou a faculdade e ao retornar para a casa da mãe, no Queens, um comentário mudaria completamente sua vida: uma colega de escola de arte ouviu Cyndi cantar durante uma reunião entre amigos e disse que ela tinha uma voz profissional e deveria tentar a carreira de cantora.
Animada, Cyndi passou a procurar anúncios de bandas que precisavam de vocalistas. As primeiras audições nem sempre foram fáceis, mas, em uma delas, ao interpretar "I've Got to Use My Imagination", de Gladys Knight & the Pips, acabou descobrindo a potência da própria voz. Durante a apresentação, forçou uma nota mais alta do que pretendia e surpreendeu não apenas os músicos que assistiam à audição, mas também a si mesma. Naquele instante, percebeu que possuía uma extensão vocal muito maior do que imaginava.
Ela foi contratada por uma banda de covers, inicialmente como backing vocal. Porém, sempre que a plateia começava a perder o interesse, os músicos a chamavam para assumir os vocais principais em músicas como "Lady Marmalade", "I've Got the Music in Me" e "Tell Me Something Good". Aos poucos, ficou evidente que sua presença de palco chamava mais atenção do que a do vocalista principal.
Com o tempo, um empresário sugeriu que Cyndi assumisse definitivamente os vocais da banda. Parte dos integrantes passou a enxergá-la como uma ameaça, criando um ambiente cada vez mais hostil. O episódio mais traumático aconteceu durante uma reunião na casa de um dos músicos. Segundo Cyndi relata em sua autobiografia, ela foi vítima de uma agressão sexual praticada pelo integrante da banda com a participação de outras pessoas presentes. Em choque, contou o ocorrido aos demais músicos, mas ninguém acreditou em sua versão.
"Uma noite, alguns de nós estávamos na casa de um dos membros da banda. Ele era um pouco maluco e muito provocador – o tipo de cara que falava sobre sexo e o que ele fazia com a namorada o tempo todo e achava engraçado fazer xixi na própria cerveja. Por alguma razão, ele e a namorada dele tinham uma caixa cheia de dildos na casa dele. Eles me disseram: “Vá em frente – escolha um”. Achei engraçado, estávamos todos rindo disso, então peguei um deles, olhei e coloquei de volta na caixa. A irmã da namorada dele também estava lá e estava tudo divertido até que, de repente, a atmosfera da sala mudou. Ele pegou o dildo e duas outras pessoas me agarraram. Corri para longe deles, mas eles me pegaram e tiraram a minha calça. Aí esse cara pegou o vibrador e o usou em mim.O rapaz gay da banda estava lá e começou a surtar. Ele ficava gritando: “Oh, meu Deus, oh, meu Deus, não machuquem ela!”. Eu não podia acreditar no que estava acontecendo. Tentei me soltar com todas as forças e não consegui, porque estava sendo segurada pela namorada dele e pela irmã dela – e ela era uma garota grande. Fiquei atordoada, em estado de choque.
Finalmente me soltei, agarrei o dildo e ia enfiar no rabo dele, e eles falavam: “Vai, vai, vai!”, mas eu o derrubei. Eu estava nauseada e incrédula, porque não eram apenas homens – era um homem e duas mulheres. Eu simplesmente não conseguia entender o porquê. Enquanto tudo estava acontecendo, vi alguém sentado na cama olhando para mim e chorando. Pensei: “Sou eu ou um anjo chorando”. A namorada do cara entrou no banheiro e entrei também. Eu ainda não estava vestida e perguntei a ela: “Por quê? Por que você fez isso comigo?”. Ela me disse que era porque ela amava o cara e queria fazê-lo feliz.
Apenas me vesti e saí. Fiquei meio que em choque por um bom tempo. Eu pensava que, quando você está numa banda, você é da família. Porque você é igual a eles. Sempre senti afinidade com músicos. Sempre ficava feliz em saber que havia pessoas no mundo que se sentiam como eu antes de encontrálas. Pensava: “Por que diabos estou aqui? Sou um nada. O que posso fazer? Não posso fazer nada. Não consigo nem manter um emprego”. Pensei que havia um código de honra entre ladrões. Depois percebi que talvez fosse porque esse cara tinha começado a banda, então o poder escapou dele e veio para mim. E esse ato foi como um instinto muito animal para dominar. Eu disse a ele que eu diria aos outros o que aconteceu e ele disse: “Vá em frente, diga a eles – eles não vão acreditar”. Dito e feito, eu disse aos outros rapazes da banda e eles não acreditaram em mim.
Depois disso, se é que dá para acreditar, ainda fiquei com a banda porque me recusei a deixá-los me destruir.
A única razão pela qual nunca falei sobre isso publicamente antes foi por não querer dar poder a esse cara. Mas eis o que Deus fez. Em 1989, depois dos meus dois primeiros álbuns, eu estava comprando presentes de Natal em Nova York. Eu tinha motoristas maravilhosos – caras ótimos de verdade que me levavam para fazer compras. Estava nevando e eu estava na frente da Bloomingdale’s. Um cara veio e disse: “Cyn, como você está? Olhe para você: você fez acontecer. Estou tão orgulhoso de você”. Era ele. Perguntei como ele estava, e ele disse que estava trabalhando em uma delicatessen ou algo assim. Perguntei: “Como está sua namorada?”, e ele disse: “Oh, isso acabou há anos”.
No fim da nossa conversa, eu não disse nada sobre o incidente. Não precisei. Sabe quando você começa a ver o quadro completo? Voltei para o meu carro e segui em frente. Pensei: “Quer saber, amigo? A forma como você trata os outros, em algum ponto da vida, seja agora ou mais tarde, vai voltar para você”. Tudo na minha vida tem sido uma lição assim. Todas as coisas malucas."
Mesmo depois de decidir que permaneceria no grupo por algum tempo, recusando-se a permitir que aquele episódio encerrasse sua carreira, pouco depois, acabou sendo dispensada da banda.
Em vez de encarar a demissão como um fracasso, decidiu transformá-la em um novo começo. Aproveitando os contatos que havia feito na cena musical de Nova York, nasceu a "Flyer", banda que marcaria uma das fases mais importantes de seu desenvolvimento artístico, reunindo músicos que havia conhecido durante suas apresentações na cena local. A formação contava com Jimmy (guitarra), Richie (guitarra rítmica), Eddie (baixo) e Charlie (bateria).
Diferentemente da banda anterior, que era voltada para covers de Janis Joplin, a Flyer buscava um som mais próximo do rock de Rod Stewart. Durante essa fase, Cyndi começou a entender melhor como funcionava uma banda e a desenvolver seu estilo como vocalista. O guitarrista Richie, com quem viveu um relacionamento, também teve grande influência em sua formação artística. Apaixonado por literatura, ele a incentivava a analisar as letras de compositores como Elvis Costello e David Bowie, mostrando como grandes canções podiam unir poesia e música. Durante as longas viagens para os shows, os dois discutiam letras, poesia e performance, despertando nela o desejo de criar músicas próprias, em vez de apenas interpretar sucessos de outros artistas.
Embora ainda tocasse principalmente covers, Cyndi já chamava atenção por seu estilo explosivo no palco. Ela transformava cada apresentação em um espetáculo, interagia com o público e fazia performances incomuns para a época.
Apesar do crescimento artístico, a vida pessoal da cantora atravessava um momento delicado. Durante o relacionamento com Richie, Cyndi descobriu que estava grávida. Como havia tomado medicamentos antes de saber da gestação e enfrentava sérios problemas de saúde, acabou interrompendo a gravidez. Em sua autobiografia, ela revela que a decisão a marcou profundamente e permaneceu como uma das maiores dores de sua vida, chegando a afirmar que, depois de melhorar, passou a desejar ter aquele filho. A experiência a acompanhou por muitos anos e influenciou sua forma de enxergar a maternidade, o aborto e a própria carreira.
Enquanto lidava com esse sofrimento, Cyndi continuava se apresentando quase todas as noites no circuito de bares e casas noturnas de Long Island. O esforço constante para competir com o volume das bandas começou a destruir sua voz. Após perder completamente a capacidade de cantar, ouviu de médicos que talvez nunca mais voltasse aos palcos.
Recusando-se a aceitar esse destino, procurou a preparadora vocal Katie Agresta, que se tornaria uma das pessoas mais importantes de sua carreira. Foi ela quem incentivou Cyndi a encontrar sua própria identidade vocal e a abandonar as imitações de Janis Joplin, ajudando-a a desenvolver a técnica que preservaria sua voz dali em diante.
Ao retornar aos palcos, Cyndi tinha uma certeza: não queria passar a vida cantando covers. Tentou compor ao lado dos integrantes da Flyer, mas as parcerias não evoluíam. Tudo mudou quando conheceu o tecladista, saxofonista e compositor John Turi durante uma apresentação no Trude Heller's. A afinidade musical entre os dois foi imediata e, pouco tempo depois, Cyndi deixou a Flyer para formar a "Blue Angel", banda que finalmente lhe permitiria interpretar canções próprias e dar início ao caminho que a levaria ao estrelato.
A banda chegou a se chamar, primeiramente de "Loose Lips", mas esse nome foi descartado em seguida. Passando por várias versões diferentes da banda, com muitos guitarristas diferentes, e também por vários tipos de sons antes de se estabelecerem no rockabilly.
Algumas demos foram gravadas e a fita foi enviada para Steve Massarsky, que estava administrando o Allman Brothers Band. Massarsky disse que a fita era horrível, mas ele ficou atraído pela voz de Lauper. Ele os viu tocando ao vivo e, finalmente, passou a administrar a banda com um contrato de US$ 5 000. Muitas pessoas queriam contratar Lauper somente se ela fosse entrar como uma cantora solo. Lauper não aceitou, querendo que a banda fosse incluida em qualquer contrato que ela fosse assinar. A Polydor Records finalmente assinou contrato com eles como uma banda. Em 1980, eles lançaram um álbum com o mesmo nome da banda pela Polydor Records. A revista Rolling Stone mais tarde incluiu a capa da banda como "100 Melhores Capas de Álbum". Lauper odiava a capa, muitas vezes dizendo que a fazia parecer o Big Bird. Apesar da aclamação da crítica, o álbum vendeu muito pouco e a banda se separou. Os membros do Blue Angel brigaram com Massarsky, pois ele tinha levado maior parte do pouco lucro que o álbum recebeu. Mais tarde, a banda perdeu o processo que tinha lançado contra ele, e resolveram declarar falência para escaparem da dívida.
Blue Angel (1ª Formação)
"Blue Angel Privates" é provavelmente o primeiro bootleg lançado com algum material de Cyndi Lauper. Ele possui uma gravação amadora de um show em um clube privado na cidade de Nova Iorque em 14 de fevereiro de 1981. Há pelo menos dois lançamentos desse álbum, com capas diferentes.



















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