Era para ter sido diferente: histórias dos três primeiros álbuns de Cyndi Lauper


Quando pensamos nos três primeiros álbuns de Cyndi Lauper, She's So Unusual (1983), True Colors (1986) e A Night to Remember (1989), é fácil lembrar dos sucessos que marcaram uma geração. Mas, por trás dessas obras, existem histórias pouco conhecidas que mostram uma artista constantemente lutando para preservar sua identidade criativa.


A própria Cyndi revelou muitos desses bastidores em sua autobiografia, mostrando que diversas decisões que hoje parecem óbvias quase seguiram um caminho completamente diferente.




A icônica capa de She's So Unusual era para ter sido diferente!


Durante a sessão de fotos, a gravadora preferia uma imagem em que Cyndi levantava o vestido, revelando a anágua, em uma pose considerada mais "feminina" e passiva. Mas ela acreditava que a fotografia que realmente representava sua personalidade era a que a mostrava dançando, cheia de movimento e atitude.


Para defender sua escolha, Cyndi fez algo simples: mostrou as duas fotos para pessoas de diferentes idades. Os mais jovens escolheram justamente a imagem mais forte e expressiva, enquanto os mais velhos preferiram a pose tradicional.


Com esse argumento, ela convenceu o presidente da gravadora, Lennie Petze, a usar sua escolha. O resultado foi uma das capas mais emblemáticas da história do pop, uma imagem que traduz perfeitamente o espírito irreverente de She's So Unusual.


Partindo dessas informações, poderia-se imaginar que a capa poderia ter sido assim:



True Colors: oportunidades perdidas... e joias escondidas


Durante a produção de True Colors, Cyndi gravou "Iko Iko" com Patti LaBelle. As duas já haviam desenvolvido uma amizade, e Cyndi queria que Patti também participasse oficialmente do álbum.


Mas isso nunca aconteceu.


Segundo a cantora, Patti pediu participação nos royalties, algo que a gravadora e seu empresário, David Wolff, não aceitaram. Cyndi acabou concordando com a decisão, mas admite que se arrepende:


"Não dou a mínima para isso, mas concordei com eles e perdi a chance de cantar com minha amiga em um disco." Foi uma oportunidade que nunca mais voltou.



Outra curiosidade envolve "Heading for the Moon". Em entrevista à revista Star Hits, edição de janeiro de 1987, em uma matéria intitulada "The Colors of Cyndi", ela explicou que gostava muito da música, mas simplesmente não havia espaço para incluí-la no álbum. Vale lembrar que o disco de vinil possui essa limitação, então dependendo do tempo das músicas, os álbuns antigamente eram lançados com no máximo 10 faixas, podendo conter um pouco mais, porém com canções mais curtas. Por isso era comum que as faixas terminassem em um fade out.


Em vez de deixá-la engavetada, decidiu lançá-la como lado B do single de "True Colors", transformando-a em uma daquelas joias escondidas da discografia da cantora.


A faixa foi incluída na edição de comemoração dos 35 anos do lançamento do álbum.


Ou seja, poderíamos ter tido uma tracklist assim originalmente:




O álbum que deveria se chamar Kindred Spirit


Se dependesse apenas de Cyndi Lauper, seu terceiro álbum jamais teria se chamado A Night to Remember.


Seu projeto original tinha outro nome: Kindred Spirit.


A ideia nasceu da paixão da cantora por antigas gravações que pareciam transportar o ouvinte para outra época. Ela queria criar exatamente essa sensação: um disco quase atemporal, cheio de magia, texturas sonoras vintage e atmosfera.


A faixa "Kindred Spirit", que acabou permanecendo no álbum, representa perfeitamente esse conceito. Para gravá-la, Cyndi utilizou um efeito envelhecido na voz e tocou dulcimer, instrumento que aprendeu sozinha, justamente para criar essa impressão de uma gravação perdida no tempo.


Mas a gravadora enxergava o projeto de outra maneira.


Enquanto Cyndi queria fazer um disco artístico, os executivos buscavam algo mais comercial. Ela conta que a empresa passou por sucessivas mudanças de direção e que suas ideias acabavam constantemente questionadas.


Até mesmo "I Don't Want to Be Your Friend", escrita por Diane Warren, foi completamente reinventada por Cyndi. Em vez de gravá-la como uma balada pop tradicional, ela reduziu o tom da música, acrescentou elementos cajun, convidou o músico Rockin' Dopsie para tocar gaita-ponto e chamou o baixista sul-africano Bakithi Kumalo para criar uma atmosfera inspirada nas bandas de funeral de Nova Orleans.


A versão ficou muito diferente da original — e Diane Warren, segundo Cyndi, não gostou nada da transformação.


Na autobiografia, a cantora resume aquele momento de forma dolorosamente honesta:


"Eu pensava apenas na arte e na magia da música."


Sem apoio consistente da gravadora e enfrentando constantes mudanças internas na Sony, Cyndi acabou cedendo às pressões para produzir um álbum mais comercial.


Assim nasceu A Night to Remember.


Hoje, porém, ela brinca chamando o disco de "A Night to Forget", acreditando que o projeto já nasceu prejudicado pela falta de direção da gravadora.



Olhando para esses três álbuns, fica evidente que Cyndi Lauper passou boa parte da carreira defendendo suas ideias.


Ela brigou pela capa de She's So Unusual.


Lamentou a ausência de Patti LaBelle em True Colors.


E viu seu sonho de lançar Kindred Spirit ser substituído por um projeto mais comercial.


Talvez seja justamente essa insistência em permanecer fiel à própria visão artística que explique por que sua obra continua tão fascinante décadas depois. Muito além dos grandes sucessos, a história desses discos revela uma artista que nunca deixou de lutar para fazer música do seu jeito.

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