Há 11 anos, Cyndi Lauper e a conquista da Broadway: quando Kinky Boots mudou sua carreira
Em 30 de julho de 2015, Cyndi Lauper participou de uma sessão de fotos e entrevistas em Nova York para divulgar a chegada da turnê norte-americana de Kinky Boots a Boston. As imagens capturadas naquele dia, posteriormente distribuídas pela Getty Images, mostram a artista em um momento especial de sua carreira: apenas dois anos após vencer o Tony Award por sua primeira trilha sonora para a Broadway.
Na entrevista publicada dias depois pelo Boston Globe, Lauper relembrou a infância ouvindo discos de musicais, contou como surgiu sua parceria com Harvey Fierstein e refletiu sobre o sucesso inesperado de Kinky Boots, espetáculo que se tornaria um dos maiores fenômenos da Broadway nos anos 2010.
Em 2013, Cyndi Lauper entrou para a história ao se tornar a primeira mulher a vencer sozinha o Tony Award de Melhor Trilha Sonora Original, graças ao musical Kinky Boots.
Segue a tradução integral da matéria do Boston Globe de 8 de agosto de 2015.
Vencedora do Tony, Cyndi Lauper encontrou seu lugar com "Kinky Boots"
Boston Globe – 8 de agosto de 2015
NOVA YORK — Quando era criança, Cyndi Lauper adorava tomar conta da vitrola de sua mãe quando sua irmã mais velha estava na escola e sua mãe no trabalho. Mais tarde, ela passaria a se encantar pelos Beatles e pelas Supremes, mas os artistas que ouvia naquela época não eram estrelas do pop — eles habitavam os palcos da Broadway.
"Quando eu era pequena, eles eram a música pop — estavam nas paradas", conta Lauper. "Eu ouvia tudo com muita atenção e interpretava todos os personagens, mudando minha voz para cada um deles. Se eu fosse Eliza Doolittle, pode apostar que Rex Harrison estava sentado na cama da minha mãe olhando para mim enquanto eu cantava!"
Sentada em uma sala tranquila acima do Sardi's — um dos restaurantes mais tradicionais do mundo teatral de Nova York — Lauper ri ao lembrar daqueles discos que, segundo ela mesma, "acabou destruindo um pouco" de tanto ouvir.
Embora tenha seguido uma longa carreira na música pop, Lauper admite que ouvir musicais como Carousel e West Side Story foi "a maneira como aprendi a cantar". E claramente ela aprendeu muito mais do que isso. Em 2013, Lauper, que nunca havia escrito para a Broadway antes, venceu o Tony Award por sua vibrante e emocionante trilha sonora de Kinky Boots, adaptação musical do filme de 2005 sobre a improvável amizade entre Lola, uma drag queen, e Charlie, o herdeiro relutante de uma fábrica de sapatos britânica à beira da falência. O espetáculo também venceu o prêmio de Melhor Musical, somando seis Tonys ao todo, e continuava atraindo multidões mais de dois anos após sua estreia.
Uma produção itinerante de Kinky Boots, apresentada pela Broadway in Boston, chegaria à Boston Opera House naquela semana para uma temporada de três semanas.
"Quando você produz algo para a Broadway, sempre tem uma sensação de que as pessoas em outras cidades vão querer assistir à história que está contando", explica Hal Luftig, um dos produtores do espetáculo. "Ainda durante os testes em Chicago, fomos inundados por produtores locais perguntando: 'Quando isso vai chegar à nossa cidade?' Foi aí que pensamos: 'Nossa, vamos mesmo fazer uma turnê nacional!'"
Mesmo que Kinky Boots tenha conquistado o público desde cedo, o sucesso do espetáculo esteve longe de ser garantido. O dramaturgo Harvey Fierstein, responsável pelo texto, adorava o filme original, mas inicialmente não ficou convencido quando o diretor Jerry Mitchell lhe apresentou o projeto.
"Eu não sou dessas pessoas que dizem: 'Ah, adorei aquele filme, vamos transformá-lo em musical!' Isso me parece uma ideia meio boba", comenta Fierstein.
De fato, a história do filme não parece, à primeira vista, material óbvio para um musical. Charlie está prestes a se mudar para Londres com sua noiva superficial, mas acaba permanecendo em sua cidade natal para tentar salvar a fábrica herdada de seu pai. Um encontro inesperado com Lola lhe dá a ideia de fabricar botas resistentes o suficiente para suportar o peso de um homem, mas elegantes o bastante para agradar qualquer mulher.
Mas ao rever o filme, Fierstein enxergou algo diferente.
"Eu não vi apenas a história de uma fábrica salva pela produção de botas para drag queens. Vi outra história, algo verdadeiramente universal: os danos que nossos pais causam em nós, mesmo sem intenção, porque nunca deixamos de buscar a aprovação deles."
Charlie acredita que seu pai gostaria que ele mantivesse a fábrica funcionando. Já Lola, cujo nome de nascimento é Simon, acredita que seu pai gostaria que ele tivesse se tornado boxeador profissional. Fierstein se identificou profundamente com esse conflito e decidiu participar do projeto.
Convencer Cyndi Lauper foi muito mais fácil.
"Eu só queria trabalhar com Harvey", recorda ela. "Quando ele perguntou: 'Você quer fazer isso?', eu respondi: 'Claro'. E ele disse: 'Mas você não quer nem olhar primeiro, Tina?'"
(Fierstein a chamava de "Christina" ou "Tina" durante boa parte do tempo em que trabalharam juntos, algo que Lauper ainda considera bastante engraçado.)
Lauper se sentiu atraída pelo desafio de criar uma identidade musical própria para cada personagem.
"Eu pude cantar de todas essas maneiras diferentes", explica. "Eu vivia perguntando ao Harvey: 'Quais são as regras?' E ele respondia: 'Não existem regras.'"
O resultado final parece refletir perfeitamente tanto a voz artística de Fierstein quanto a de Lauper: o humor direto e afiado dele combinado à sensibilidade emocional dela, além de seu pop melódico com uma carga emocional profunda.
"Eu não queria que eles dissessem: 'Ah, fizemos isso e depois colocamos ela no projeto'. Eu queria ser a pessoa certa para eles. Queria que a música tivesse integridade."
Como os grandes compositores da Broadway que admirava na infância, ela tentou criar canções que impulsionassem a narrativa, mas que também pudessem existir independentemente do espetáculo.
Isso não significava imitar Rodgers & Hammerstein.
"Achei que eles queriam músicas pop", diz ela. "Por que me chamariam se não quisessem músicas pop? É isso que eu escrevo, e é o melhor que sei fazer."
Fierstein destaca especialmente a canção "Not My Father's Son", o emocionante dueto entre Charlie e Lola próximo ao final do primeiro ato. Para ele, a música resume perfeitamente a mensagem central do espetáculo.
"Eles vivem um momento catártico", explica. "Achamos que decepcionamos nossos pais, mas eles sabem quem somos e nos aceitam. Somos nós que não nos aceitamos."
E continua:
"Eu sempre rio quando dizem que a mensagem da peça é simplesmente 'seja você mesmo'. Sim, isso está lá. Mas as pessoas saem desse espetáculo sentindo algo diferente. É um tipo de felicidade acompanhado de lágrimas nos olhos."
Para Kyle Taylor Parker, que interpretava Lola na turnê, essa mensagem tinha um significado muito pessoal. Parker havia perdido o pai pouco depois da estreia do musical na Broadway.
"Foi uma relação incompleta, longe de ser perfeita", conta. "Depois que ele morreu, Harvey me disse: 'Agora você tem duas vidas: a vida que teve com seu pai e a vida sem ele, quando passa a ser responsável pelas próprias escolhas.' Acho que Lola também descobre isso."
Mas Kinky Boots não é apenas uma reflexão sobre relações familiares. O espetáculo também é repleto de números musicais grandiosos, humor irreverente e muita energia.
"É uma história extremamente inspiradora", afirma a produtora Daryl Roth. "Quem não gosta de brilho e glamour? Mas quando você sai do teatro, o que realmente leva consigo é a forma como aquela história tocou seu coração."
Lauper estava especialmente feliz por levar o espetáculo para Boston. Afinal, foi uma das primeiras cidades a abraçar seu sucesso "Girls Just Want to Have Fun" em 1983, graças ao apoio do DJ Sunny Joe White, da rádio KISS 108.
"Boston é uma cidade incrível. E também tem suas subculturas", comenta ela com um sorriso.
Mais de vinte anos depois daquele primeiro grande sucesso, ela demonstrava enorme orgulho ao apresentar outro fenômeno ao público da cidade.
"Muitas vezes você trabalha muito duro em algo, mas quantas vezes isso realmente decola dessa maneira?", diz Lauper, ainda parecendo surpresa com o sucesso. "Tenho que dar crédito às pessoas ao meu redor e ao fato de que ninguém desistiu e disse: 'Está pronto, acabou'."




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