IKO IKO: QUAL O SIGNIFICADO DO CLÁSSICO DE NOVA ORLEANS GRAVADO POR CYNDI LAUPER?

Entre as muitas canções que Cyndi Lauper gravou ao longo de sua carreira, poucas carregam tantos mistérios quanto "Iko Iko". Presente no álbum True Colors (1986), a música possui uma história fascinante que começou décadas antes de chegar à voz da nossa diva. E, curiosamente, seu passado pode esconder uma das mais intrigantes gravações inéditas associadas à discografia de Cyndi.

A origem de "Iko Iko" remonta a 1953, quando o músico de Nova Orleans James "Sugar Boy" Crawford lançou uma canção chamada "Jock-A-Mo". Inspirada nos cantos tradicionais dos chamados Mardi Gras Indians — grupos afro-americanos que participam das celebrações carnavalescas da cidade usando elaborados trajes inspirados nos povos indígenas — a música rapidamente chamou atenção por sua sonoridade única e por uma letra que ninguém conseguia explicar completamente.

O refrão continha expressões como:

"Iko Iko an day"

"Jock-A-Mo fee no ai na nay"

Segundo o próprio Crawford, a composição nasceu da união de dois cantos tradicionais que ele costumava ouvir durante os desfiles.

"Iko Iko" seria um canto de celebração e vitória, enquanto "Jock-A-Mo" era utilizado durante os desafios cerimoniais entre diferentes tribos. O músico simplesmente uniu os dois elementos e criou uma nova canção.

A letra descreve o encontro entre duas tribos rivais durante um desfile. Um "Spy Boy", responsável por observar o caminho à frente, encontra o "Flag Boy" de outra tribo e inicia uma troca de provocações simbólicas.

Durante décadas, linguistas, historiadores e pesquisadores tentaram descobrir o significado exato dessas palavras.

Existem teorias que apontam influências de idiomas africanos, do crioulo da Louisiana, de línguas indígenas americanas e até de tradições culturais vindas do Haiti. O problema é que não existe consenso entre os especialistas.

O mais curioso é que o próprio James Crawford admitiu diversas vezes que não sabia exatamente o significado das expressões que utilizou. Ele simplesmente adaptou para a música palavras e frases que ouvia durante os desfiles dos Mardi Gras Indians.

Em 1965, o grupo feminino The Dixie Cups transformou a canção em um sucesso internacional e, desde então, "Iko Iko" tornou-se uma das músicas mais regravadas da história da música americana.

A versão surgiu quase por acidente durante uma sessão de gravação em Nova York. As integrantes começaram a cantar a música espontaneamente, acompanhando o ritmo com objetos encontrados no estúdio. O resultado agradou tanto aos produtores que acabou sendo lançado como single.

Desde então, "Iko Iko" tornou-se uma das músicas mais regravadas da história da música americana, passando por artistas como Dr. John, Grateful Dead, The Belle Stars e, naturalmente, Cyndi Lauper.

Quando Cyndi Lauper preparava seu segundo álbum de estúdio, True Colors, decidiu incluir sua própria interpretação do clássico.

A escolha fazia sentido. O álbum apresentava uma artista mais madura, explorando novas influências e estilos musicais. Em meio a baladas emocionantes e faixas pop, "Iko Iko" surgia como uma celebração da tradição musical americana.

Com seus vocais marcantes e sua personalidade irreverente, Cyndi deu nova vida à canção e apresentou o clássico de Nova Orleans a uma geração inteira de ouvintes dos anos 1980.

Mas a história pode não terminar aí.

Durante muitos anos, a história de um possível dueto entre Cyndi Lauper e Patti LaBelle em "Iko Iko" foi tratada apenas como uma curiosidade compartilhada entre fãs e colecionadores. No entanto, documentos da época sugerem que a história pode ter sido muito mais real do que se imaginava.

Pouco antes do lançamento de True Colors, uma publicação japonesa noticiou o encontro de Cyndi Lauper e Patti LaBelle durante as gravações de "Iko Iko", indicando que as duas artistas estavam trabalhando na faixa naquele período.

A informação ganha ainda mais força por causa de uma crítica publicada pelo Washington Post em setembro de 1986. Segundo o jornal, "Iko Iko" havia sido originalmente planejada como um dueto entre Cyndi Lauper e Patti LaBelle. A reportagem afirmava ainda que os vocais de Patti teriam sido removidos posteriormente devido a uma disputa envolvendo royalties.

Embora nenhuma gravação com a participação de Patti tenha sido oficialmente lançada, a existência dessas referências contemporâneas sugere que a colaboração realmente chegou a acontecer em algum estágio da produção do álbum.

Anos mais tarde, em sua autobiografia, Cyndi Lauper relembrou esse episódio ocorrido durante as gravações desse projeto:

"Patti LaBelle, que se tornara uma amiga, deveria estar em True Colors também. Mas ela queria alguns royalties, e Lennie e Dave não fariam isso. Não dou a mínima para isso, mas concordei com eles e perdi a chance de cantar com minha amiga em um disco. 

Eu a conheci quando estava em Los Angeles, quando fui a um de seus shows depois que minha turnê “Fun” terminou. Sempre fui uma grande fã de sua voz, e ela estava incrível, como de costume. Cheguei nos bastidores e lembro que fiquei lá apenas chorando, pois a apresentação dela tinha sido muito emocionante. Então ela me convidou para subir ao palco – imagine, totalmente sem preparo. Acho que ela estava cantando “Stir It Up” e acabei fazendo o backing vocal. Mais tarde comecei a cantar e improvisar com ela e nos tornamos amigas."

Embora ela jamais tenha mencionado "Iko Iko" diretamente, a semelhança entre seu relato e as informações publicadas pela imprensa em 1986 levou muitos pesquisadores e colecionadores a acreditar que ambos os episódios possam estar relacionados.

Sem uma confirmação oficial, a ligação permanece especulativa, mas representa uma das hipóteses mais consistentes sobre a origem do lendário "dueto perdido".

Quase quarenta anos depois, nenhuma versão alternativa de "Iko Iko" com Patti LaBelle veio a público. Se os vocais realmente foram gravados, eles permanecem inéditos.

Por isso, a gravação ocupa hoje um lugar especial entre as possíveis mídias perdidas associadas à carreira de Cyndi Lauper. Diferentemente de muitos rumores sem fundamento, este caso é sustentado por publicações contemporâneas, memórias da própria artista e documentos históricos que apontam para uma colaboração que talvez tenha existido, mas que o público jamais teve a oportunidade de ouvir.

FUN FACT

Ao ouvir "Iko Iko", algumas pessoas imediatamente se lembram de "Como Uma Deusa", sucesso de Rosana lançado em 1987.

Apesar da semelhança percebida por alguns ouvintes nos arranjos, as músicas não têm relação direta. "Como Uma Deusa" é uma versão em português de "The Power of Love", porém a base que os produtores criaram para "Iko Iko" foi usada com pouquissimas mudanças neste sucesso de Rosana.

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