Cyndi Lauper nos anos 2000, matéria para Revista Us Weekly: “The Land of Laupertunity”
Em 20 de agosto de 2000, Cyndi Lauper estampava as páginas da revista norte-americana Us Weekly em uma matéria especial intitulada “The Land of Laupertunity”. Escrita por John Sanchez e fotografada por Jill Greenberg, a reportagem acompanhava um momento bastante particular da carreira da nossa diva: sua transição para uma nova fase no cinema, com o filme The Opportunists (Os Oportunistas).
A revista destacava justamente a imprevisibilidade de sua carreira e apresentava uma artista que, aos poucos, revelava um lado mais sério como atriz.
A matéria também abordava sua vida naquele período, seus projetos musicais, a relação com a moda e a fotografia, além de registrar o processo de preparação para seu novo papel no cinema.
O ensaio fotográfico que acompanha a reportagem mostra uma Cyndi bastante diferente da imagem irreverente que marcou os primeiros anos de sua carreira — incluindo o elegante retrato utilizado na página da revista, no qual a cantora aparece com os cabelos curtos e platinados, usando um vestido branco e azul.
A seguir, apresentamos uma versão em português traduzindo a matéria na íntegra:
“A Terra da Laupertunidade”
A carreira de Cyndi Lauper tem sido tão imprevisível quanto a cor de seus cabelos, mas seu novo filme, The Opportunists, pode ser sua reviravolta mais surpreendente até agora: a cantora irreverente se transforma em uma atriz dramática.
Garotas só querem se divertir, mas, por enquanto, uma xícara de café já está de bom tamanho.
Poucas horas depois de desembarcar do voo noturno de volta a Nova York, após um fim de semana de shows na Califórnia, Cyndi Lauper está recostada na cadeira de maquiagem de um estúdio fotográfico localizado entre um conjunto habitacional e o Fashion Institute of Technology, onde a próxima geração de Dolces e Gabbanas está aperfeiçoando seu ofício.
Lauper diz que os compromissos na Califórnia — incluindo uma participação no festival de orgulho gay de San Diego — foram ótimos, mas parece que tudo o que lhe restou foi cansaço e unhas coloridas como um arco-íris, que, segundo ela, infelizmente terão de ser modificadas para a sessão de fotos.
O Pride se tornou uma tradição anual para Lauper, casada e mãe, e ela fala sobre isso como uma obrigação profunda.
“Você precisa defender seus amigos e sua família e ter orgulho deles”, diz ela simplesmente.
Ambientado nos antigos redutos de Lauper no Queens, The Opportunists (First Look Pictures) também conta com Christopher Walken no elenco, mas tanto ele quanto Lauper foram escolhidos para papéis diferentes daqueles que normalmente interpretam — portanto, não compre um ingresso esperando vê-lo interpretando outro psicopata enquanto ela faz sua habitual Betty Boop para servir de alívio cômico.
“É muito simples, muito direto ao ponto”, diz ela sobre o filme. “Não há violência, palavrões, e ele prende sua atenção sem sexo.”
Também não há muitas risadas.
Dos seus primeiros videoclipes, cheios de irreverência, até sua participação premiada com o Emmy em Mad About You, Lauper sempre foi conhecida por fazer as pessoas rirem. Mas, como Sally, a companheira de bar de Christopher Walken, que suporta pacientemente as dificuldades do personagem, ela se sai muito bem em um ambiente dramático — e fica ótima fazendo isso.
Como todos os papéis que escolhe, a resistente Sally é inspirada em “pessoas que conheci, com quem cresci, que foram a base daquilo que eu pensava que o mundo era”.
“É chocante quando você sai do Queens!”, acrescenta.
Outros papéis no cinema são uma possibilidade caso apareça o trabalho certo, embora nada esteja definido por enquanto. Os planos para uma sitcom estão em segundo plano enquanto ela planeja sua próxima direção musical.
Novos caminhos na música
Atualmente, Lauper está escrevendo material novo com ninguém menos que Junior Vasquez.
A colaboração entre os dois remonta ao álbum Hat Full of Stars, de 1992, no qual compartilharam os trabalhos de composição e produção.
Mais recentemente, eles trabalharam juntos em uma nova versão de “Disco Inferno”, indicada ao Grammy, para a trilha sonora de A Night at the Roxbury.
Embora Hat Full of Stars percorresse uma grande variedade de atmosferas e estilos pop, Disco Inferno era o tipo de música feita para levar as pessoas à pista de dança pelo qual Vasquez é conhecido.
“Junior acha que deveríamos fazer um álbum inteiro de dance”, conta Lauper, “mas eu não consigo. Não quero ser homogeneizada.”
Embora já tivesse passado algum tempo desde que estava presente nas rádios, os discos de Lauper continuavam vendendo de maneira consistente.
E, com o surgimento de cantoras de cabelos coloridos e personalidade forte, como P!nk e Gwen Stefani, sem mencionar o retorno da World Wrestling Federation, sua visão multicolorida de mundo parecia ter completado um círculo.
Não era tão difícil passar de Girls Just Want to Have Fun, com seus vestidos antigos e anáguas, para o chamado “girl power” das plataformas com bandeira britânica.
Mas será que Lauper sentia algum tipo de identificação com as Spice Girls?
Ela debocha:
“Eu gosto de coisas com um pouco mais de atitude, como Cibo Matto e o músico japonês Ryuichi Sakamoto.”
A sessão de fotos
A maquiagem está pronta, a manicure do Pride desapareceu e a câmera está preparada.
Que se dane o jet lag — de repente, Lauper ganha vida.
A câmera a adora, e o sentimento é recíproco.
Depois de dar algumas dicas de iluminação ao fotógrafo, usando como referência os livros de antigas fotografias de filmes mudos que trouxe consigo, ela trabalha suas feições inspiradas em Clara Bow e Louise Brooks com toda a intensidade possível.
O primeiro figurino, uma roupa preta vagamente monástica, é rejeitado.
“Muito Irmã Maria Assustadora”, brinca ela.
Ainda assim, o contraste com sua pele clara aparece radiante nas fotografias instantâneas.
“Meu novo filme é muito simples, muito direto ao ponto. Não há violência, não há palavrões e ele prende sua atenção sem sexo.”
Cyndi diante das câmeras
O assistente do escritório do estúdio também trabalha como DJ e começa a tocar “Lady Cab Driver”, de Prince.
Enquanto isso, Lauper, usando uma peça enfeitada com marabu, faz poses como se estivesse no dia da formatura da escola de modelos Barbizon.
“Estou usando penas, e estou feliz”, ela ri.
“Sabe, eu vi Mahogany! Na verdade, não vi o filme inteiro — só vi o trailer, em que o cara diz: ‘Você é fabulosa, você é fabulosa!’”
Talvez tenha sido melhor que ela tenha sido poupada do final infeliz.
O terceiro figurino é um casaco de brocado roxo — “Uma pechincha!” — usado sobre uma saia preta com rosas.
Logo, ela ergue as rosas e, com um sorriso travesso, coloca o pé descalço diante da câmera.
A manicure colorida do arco-íris pode ter sido coberta, mas a pedicure do orgulho gay assume uma postura desafiadora diante das lentes.
Linda como um arco-íris, as verdadeiras cores de Lauper continuam brilhando.


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