Há 21 anos: quando Cyndi Lauper revisitou seus clássicos com novos sons e convidados
O resultado foi The Body Acoustic, seu nono álbum de estúdio, lançado naquele ano e marcado pela participação de diversos artistas convidados.
O projeto nasceu de apresentações beneficentes que Cyndi vinha realizando. Nessas ocasiões, ela passou a apresentar seus clássicos acompanhada de um dulcimer, instrumento de cordas associado à música folk americana. A experiência chamou a atenção da gravadora, que sugeriu transformar aquelas novas interpretações em um álbum.
Em entrevista à revista HX, publicada em novembro de 2005, Cyndi explicou que não queria produzir o típico disco acústico lento e melancólico.
“Eu não queria fazer um disco de Prozac.”
Sua intenção era recuperar uma atmosfera mais orgânica, inspirada na música folk americana, na sensação de pessoas reunidas depois do jantar para cantar e tocar, mas sem abandonar a energia do rock.
The Body Acoustic reúne dez músicas anteriormente gravadas por Cyndi, agora apresentadas em novos arranjos, além de duas composições inéditas.
Para o projeto, a cantora convidou artistas com quem sempre desejou trabalhar. Entre eles estavam Shaggy, Ani DiFranco, Adam Lazzara, do Taking Back Sunday, Jeff Beck, Puffy AmiYumi, Sarah McLachlan e Vivian Green.
Em entrevista ao Bay Area Reporter, Cyndi contou que possuía uma verdadeira “lista de desejos” de artistas com quem gostaria de colaborar — e ficou feliz ao descobrir que muitos aceitaram o convite.
O resultado é um álbum bastante diversificado, que mistura elementos de folk, rock, pop e música acústica.
Entre as novas interpretações estão clássicos como “Time After Time”, “She Bop”, “Money Changes Everything”, “True Colors”, “Above the Clouds” e “Shine”.
Uma das particularidades do projeto foi a participação direta de Cyndi na produção visual.
Os videoclipes realizados para as músicas de The Body Acoustic foram dirigidos pela própria cantora e filmados em diferentes locações de Governors Island, em Nova York, em 21 de agosto de 2005.
Localizada na baía de Nova York, ao sul de Manhattan, Governors Island possui aproximadamente 86 hectares e fica próxima ao Brooklyn.
A proposta visual acompanhava a ideia do álbum: revisitar músicas conhecidas sob uma nova perspectiva.
A edição DualDisc de The Body Acoustic trouxe, além das músicas em áudio aprimorado, quatro desses novos videoclipes dirigidos por Cyndi e um material de bastidores mostrando o processo de produção.
“Above the Clouds” e a homenagem a Matthew Shepard
Entre as faixas mais importantes do projeto está “Above the Clouds”, escrita por Cyndi Lauper em parceria com Jeff Beck e Jed Leiner.
A música foi inspirada na história de Matthew Shepard, jovem universitário cuja morte, em 1998, tornou-se um dos casos mais emblemáticos da luta contra a violência motivada por homofobia nos Estados Unidos.
A relação de Cyndi com a história de Matthew começou alguns anos antes do lançamento de The Body Acoustic.
Em 2001, a cantora foi procurada para autorizar a utilização de “Shine”, faixa-título de seu álbum daquele ano, em um documentário sobre Shepard. A partir desse contato, Cyndi se aproximou de sua mãe, Judy Shepard, que se tornou uma importante ativista pelos direitos LGBTQ+.
Cyndi posteriormente passou a colaborar com organizações ligadas à causa e integrou o conselho da Matthew Shepard Foundation.
Assim, “Above the Clouds” não é apenas uma faixa do repertório de The Body Acoustic, mas também parte de um capítulo importante do ativismo de Cyndi Lauper.
Outra curiosidade do projeto é que “Shine”, originalmente lançada em 2001, ganhou seu primeiro videoclipe justamente durante a era The Body Acoustic.
A nova versão trouxe uma abordagem diferente para a música e ajudou a conectá-la visualmente ao conceito do álbum.
Um dos maiores sucessos de She's So Unusual, “She Bop” também recebeu uma nova interpretação.
A música, originalmente lançada em 1984, ganhou em The Body Acoustic uma abordagem mais sombria e reflexiva, transformando a faixa conhecida por sua irreverência em uma leitura mais séria sobre sexualidade e comportamento.
Outro destaque é “Money Changes Everything”, que ganhou uma nova versão com a participação de Adam Lazzara, vocalista do Taking Back Sunday.
A releitura aproxima o clássico de Cyndi da sonoridade do rock alternativo dos anos 2000, enquanto mantém a essência da composição originalmente gravada pela banda The Brains.
Talvez uma das colaborações mais delicadas do álbum seja “Time After Time”, gravada com a cantora canadense Sarah McLachlan.
A nova interpretação levou o clássico de Cyndi para uma atmosfera ainda mais acústica e intimista.
A versão chegou a aparecer na parada Adult Contemporary da Billboard, mostrando que a música continuava encontrando espaço nas rádios mais de duas décadas depois de seu lançamento original.

Na entrevista publicada pela HX em novembro de 2005, Cyndi falou sobre o processo de criação de The Body Acoustic, seus planos para o futuro e até sobre uma música que os fãs há anos pediam para ouvir novamente.
Questionada sobre “Hole in My Heart (All the Way to China)”, seu single de 1988 retirado da trilha sonora de Vibes, Cyndi revelou que a música continuava sendo uma das favoritas do público.
Ela contou que às vezes cantava a música sozinha e que gostava da ideia de surpreender o público durante os shows.
Na mesma entrevista, Cyndi também falou sobre sua vontade de continuar compondo e de encontrar tempo para colocar em prática algumas das ideias que tinha na cabeça.
Entre os projetos que imaginava estava até mesmo um programa de rádio itinerante, que seria transmitido de dentro do ônibus durante suas turnês, apresentando músicas locais de cada cidade visitada.
A conversa também mostrou o lado espontâneo e bem-humorado da cantora. Durante a entrevista, realizada enquanto ela estava no aeroporto, Cyndi chegou a interromper a conversa para procurar um perfume antes de embarcar.
O episódio resume bem a personalidade que sempre acompanhou sua carreira: imprevisível, divertida e incapaz de ficar presa a um único caminho artístico.
The Body Acoustic acabou sendo muito mais do que uma simples coleção de versões acústicas.
Cyndi Lauper revisitou músicas que já faziam parte da história de sua carreira e, ao lado de novos parceiros, encontrou maneiras diferentes de apresentá-las.
O projeto também aproximou sua música de uma nova geração de artistas e reforçou duas características que sempre estiveram presentes em sua trajetória: a liberdade para experimentar e a vontade de transformar o conhecido em algo novo.
Ao revisitar músicas como “Time After Time”, “She Bop”, “Money Changes Everything”, “True Colors” e “Shine”, Cyndi mostrou que seus clássicos não precisavam permanecer presos às gravações originais.
Eles podiam mudar. E, nas mãos de Cyndi Lauper, continuavam tendo algo novo a dizer.



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