Em agosto de 1984, Cyndi Lauper ainda estava vivendo um dos momentos mais explosivos de sua carreira. Menos de um ano após o lançamento de seu álbum de estreia, She's So Unusual, a cantora já havia conquistado o público com sua voz inconfundível, seu visual colorido e irreverente e uma personalidade que parecia não caber nos padrões da música pop da época.
O resultado é um retrato bastante espontâneo de uma artista que, naquele momento, começava a se transformar em um dos grandes nomes da cultura pop dos anos 1980. Entre respostas engraçadas, comentários sinceros e algumas histórias bastante curiosas, Cyndi revela por que, por trás de toda a extravagância de She's So Unusual, havia uma mulher que se considerava simplesmente... normal.
UMA ESQUISITA
ESTRANHAMENTE
NORMAL
Essa parece ser a imagem que Cyndi tem de si mesma. Debbi Voller tenta, em 20 perguntas, analisar La Lauper.
1. O que faz você ser tão incomum?
Nada. Acho que sou normal... é! Acho que falo de um jeito engraçado.
O título do álbum She's So Unusual foi apenas uma brincadeira. Estávamos brincando e dissemos: “É, isso é bom, isso é doido, isso é estranho, vamos usar!”
2. De onde vem toda essa sua energia?
Eu durmo bastante, tomo vitaminas e tento me alimentar da melhor maneira possível. Também faço um pouco de exercício, mas não sou muito de correr porque tenho pés chatos.
Às vezes fico realmente para baixo e preciso me obrigar a levantar e seguir em frente, mas amo o que faço, e é por isso que sou tão entusiasmada com tudo.
Eu amo cantar — acho que, se todo mundo fizesse aquilo que ama, estaria sempre entusiasmado. Esse é o segredo.
3. Você realmente acredita no título do seu penúltimo single, “Money Changes Everything” (“O Dinheiro Muda Tudo”)?
Sim, por isso gravei a música. Sempre fui pobre. Não sei como é ter dinheiro. Acho que em breve vou ter que lidar com isso, e isso vai mudar as coisas.
O dinheiro dá liberdade, se você souber aproveitá-la, mas acho que, se você for uma pessoa péssima, continuará sendo, com dinheiro ou sem dinheiro.
4. O que você quer transmitir nas suas letras?
Ah... isso vai soar muito piegas, mas quero expressar emoções e pensamentos — coração tocando coração.
Neste momento, estar no mundo do rock é algo extremamente gratificante para mim. Sempre achei que nasci na época errada — tarde demais e cedo demais. Tarde demais para aproveitar um período de explosão musical em que as pessoas podiam ser elas mesmas, e cedo demais para a próxima grande explosão!
Mas agora existe o vídeo, e posso usá-lo como uma extensão visual da minha música. Muitos artistas individuais que antes não eram aceitos agora estão sendo aceitos. Isso é muito legal.
5. O que faz você rir?
Existe um estilo antigo de comédia inglesa — acho que você chamaria de vaudeville (music hall) — meio cafona, mas inteligente. Também gosto de filmes antigos de comédia.
Eu adorava The Honeymooners, um antigo programa de TV dos anos 50 que era transmitido ao vivo nos Estados Unidos. Era sobre um homem machista que ficava dizendo à esposa que ele era o “rei do castelo”, sabe, e estava sempre fazendo alguma besteira!
6. Você foi comparada a Tracey Ullman. O que acha dela?
Depois que as pessoas começaram a me falar sobre Tracey, achei que deveria conhecê-la, e de fato a encontrei há pouco tempo.
Acho que ela é uma garota ótima, tem uma energia incrível e tudo mais! Ela é realmente engraçada, mas acho que nós duas temos tipos diferentes de humor.
7. Por que você acha que existem mais comediantes homens do que mulheres?
Ah, mas existem muitas mulheres fazendo stand-up nos Estados Unidos, como Joan Rivers, e algumas são hilárias.
Mas não acho que as mulheres na Inglaterra sejam tão degradadas quanto nos Estados Unidos. Temos programas de TV a cabo em que mulheres aparecem com os seios à mostra e praticamente sem roupa, dançando e fazendo coisas eróticas. É pornografia.
Não que eu ache que o corpo humano seja degradante; é simplesmente o fato de ele estar constantemente sendo usado em um striptease!
8. As pessoas já riram da sua aparência na rua?
Sim, já fui alvo de provocações, mas isso não me machuca tanto quanto antigamente. Quando eu era adolescente, no início do ensino médio, doía porque eu queria fazer parte de tudo como as outras pessoas, mas eu realmente me destacava.
Eu era uma esquisita, uma nerd! As pessoas riam de mim o tempo todo e isso me atingia profundamente... às vezes ainda acontece.
Mas o engraçado é que agora elas querem saber onde consegui minhas roupas!
9. Por que você gosta tanto de Hollywood?
O clima e as palmeiras — houve uma época em que Hollywood estava em plena efervescência, no sentido de ser um lugar onde grandes filmes eram feitos e havia uma verdadeira arte ali, uma comunidade criativa.
É um lugar que atrai todo mundo que quer conseguir uma oportunidade: os trabalhadores dedicados, as pessoas legais e também os aproveitadores que ficam por perto.
Mas, como nasci e cresci em Nova York, eu preferiria morar lá.
10. Qual seria sua noite ideal em Nova York?
Depende do que eu quero fazer. Posso jogar cartas e me divertir. Gosto de ir ao cinema; é muito romântico caminhar de mãos dadas, comprar pipoca e ficar jogando os grãos para todo lado.
Gosto de sair para dançar, mas as boates de Nova York mudam radicalmente. As pessoas estão sempre dizendo: “Cyndi, esta é simplesmente a MELHOR boate, você tem que ir!”
Mas nada se compara a se apresentar e sair em turnê — o que você faz numa sexta ou sábado à noite que possa competir com isso, sabe?
11. Como é a sua casa?
É um apartamento e eu adoro.
Pintei o teto da cozinha jogando tinta, então ele é todo amarelo, com o teto branco coberto de respingos pretos. Fui eu que fiz os desenhos.
Mas isso fez uma enorme bagunça, porque acabou ficando tinta preta nas paredes também, e tive que retocá-las.
A sala é azul-clara e branca com detalhes em rosa, com cortinas cor-de-rosa, uma fotografia antiga de flamingos e alguns espelhos antigos.
Há uma lareira e um sofá, mas não sou apaixonada pelo sofá.
12. Que tipo de coisas você gostava de pintar quando estudava em uma escola de arte?
Árvores — adoro a maneira como elas quase parecem humanas — e expressionismo abstrato.
Eu costumava tirar fotografias de uma determinada tonalidade que queria usar e projetá-la em uma tela ao lado da tela de pintura para conseguir reproduzir aquele tom. Eu estava quase ficando cega fazendo isso!
Eu costumava pintar nas solas dos meus sapatos. Foi daí que veio a ideia da sola na capa do meu álbum — sabe, arte na minha alma!
13. Você acredita no sobrenatural?
Você quer dizer fantasmas? Sim. Eu vi um fantasma uma vez. Ele estava simplesmente andando por aí quando eu morava em Vermont com meu cachorro.
14. Com o que você costuma sonhar?
Bem, quando eu morava em Vermont, costumava passear com meu cachorro perto dos cemitérios. Isso me dava um medo danado, e eu sonhava que as pessoas cujas sepulturas ele tinha molhado vinham me confrontar e diziam, com uma voz demoníaca e profunda: “POR QUE O SEU CACHORRO ESTÁ FAZENDO XIXI NA MINHA SEPULTURA?”
E eu respondia: “Bem, eu não sei. Eu estava morando sozinha e, depois de um tempo, você precisa conversar com as pessoas que saem da floresta, sabe!”
15. Qual é o seu bem mais precioso?
Tenho dois: eu mesma e as pessoas ao meu redor que amo.
16. Qual foi a coisa mais engraçada que você já leu sobre si mesma?
Não sei, isso continua acontecendo o tempo todo, sabe. Porque qualquer coisa que eu digo parece acabar sendo traduzida ao contrário de qualquer maneira.
A arte é interpretativa — então deixem as pessoas interpretarem da maneira que quiserem. Eu vou continuar aparecendo...
17. Algumas pessoas acham que você é louca?
Eu sou meio doidinha. Acho que todo mundo é um pouco doido — mas não sou só isso. Ainda assim, se é isso que faz as pessoas prestarem atenção em mim no começo, ótimo. Publicidade ruim é melhor do que publicidade nenhuma.
18. Qual é o seu pior defeito?
Meu temperamento. Mas, quando coloco minha raiva para fora, acabou! Nunca guardo rancor. Mas com certeza não fico guardando nada dentro de mim.
19. Quem você admira no mundo da música?
São tantos — The Beatles, Elvis, The Supremes, Little Richard, The Rolling Stones, Edith Piaf, Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Pete Townshend, Janis Joplin...
20. Se você tivesse um único desejo, qual seria?
Paz mundial — e isso é possível.
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