Entrevista de Cyndi Lauper para Interview (traduzida em português)
Por Emily Kirkpatrick
22 de outubro de 2026
Cyndi Lauper sempre se sentiu diferente. Diferente das pessoas com quem cresceu, diferente das divas glamourosas das páginas das revistas e, certamente, diferente de suas colegas estrelas pop dos anos 80. Mas, em vez de fugir de todas essas diferenças percebidas, Lauper abraçou e até amplificou suas peculiaridades únicas, transformando-as nas próprias marcas registradas que a tornaram famosa. Ela amarrava um pedaço de tule na cabeça para parecer mais alta, desenhava um delineado gatinho para realçar seus traços naturais ou se vestia com todas as cores do arco-íris ao mesmo tempo para se transformar em um caleidoscópio livre no palco. Para Lauper, essas roupas não eram apenas uma forma de se expressar, mas de se tornar maior que a vida. Mais do que uma musicista, ela é uma obra de arte ambulante, e a moda é simplesmente sua paleta.
Agora, a cantora está leiloando uma série de seus looks, pertences e objetos de recordação mais icônicos, com a Bonhams começando hoje, para dar a essas peças icônicas uma nova vida. Para marcar a ocasião, encontrei-me com Lauper na sede da Bonhams para conversar sobre seu estilo pessoal, ser punk em um mundo conservador e como não há problema grande demais que um pouco de tule não possa resolver.
QUINTA-FEIRA, 11:18, 15 DE OUTUBRO DE 2026, CIDADE DE NOVA YORK
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EMILY KIRKPATRICK: Oi! Prazer em conhecê-la. Sou Emily, da revista Interview.
CYNDI LAUPER: Sim, oi! Eu vi você lá embaixo.
KIRKPATRICK: Fiquei realmente impressionada com sua atenção aos detalhes em tudo. Até mesmo quando você entrou e imediatamente corrigiu a bola de discoteca.
LAUPER: Não é perfeccionismo. Quando estava começando, eu sabia como as coisas deveriam parecer. Sabia como deveriam soar. Colaborei com pessoas que pensavam como eu. Eu tentava. Quando não sabia alguma coisa, perguntava. Se sabia e discordava, dizia: “Discordo, porque...”. Quando você tem uma visão, só precisa ter muita clareza sobre qual é ela.
KIRKPATRICK: Com certeza. E acho que isso transparece em muitas dessas roupas. Houve momentos em que você duvidou da clareza da sua própria visão?
LAUPER: Com certeza. Participei do Friday Night Live. Acho que não era boa o suficiente para participar do Saturday Night Live. Mas vou te dizer uma coisa: sou muito grata por ter participado daquele programa porque, antes de tudo, Steve Martin apareceu e dançou comigo.
KIRKPATRICK: Incrível!
LAUPER: E não foi só isso: também conheci Pat Birch, que era a diretora de dança. Eu queria subir em alguma coisa ou fazer alguma coisa assim. Ela olhou para mim e disse: “E se você andasse naquela coisa?”, referindo-se à câmera. O cinegrafista estava usando um braço articulado. Eu pensei: “Posso fazer isso?”. Estava tão animada!
Naquela fase da minha carreira, ela me ensinou muito e me ajudou a fazer o que eu queria. Eu queria fazer performance artística. Queria voar! Quem seria melhor para me ajudar a fazer aquilo naquela época?
Eu estava trabalhando com Mary Ellen [Strom] e aquelas duas dançarinas de vanguarda. Elas também se apresentariam comigo, e eu pensei: “Meu Deus, que incrível!”.
Mas, no fim das contas, eu estava muito insegura com a minha aparência. Pensava: “Precisa ser algo grandioso. O que vou fazer?”. Peguei um pouco de tule, amarrei em volta do corpo e fiz um laço. Então pensei: “Sim! Isso é grandioso e colorido. A cada movimento meu, as cores vão da esquerda para a direita na tela. É arte viva!”.
KIRKPATRICK: Sim.
LAUPER: Foi isso que percebi agora, com mais experiência como artista: tudo aquilo não era apenas performance artística. Era arte viva! Eu pintava o meu corpo, usava cores, usava sons... Tudo se movia. Por isso, sou muito grata por ter participado daquele programa, mesmo que não tenha sido o Saturday Night Live.
KIRKPATRICK: Adoro como o tule parece ser, tantas vezes, a solução para os seus problemas.
LAUPER: Bem, o problema que tenho com o tule hoje em dia é que ele simplesmente não é fabricado da mesma maneira.
KIRKPATRICK: Faz sentido.
LAUPER: Antes, ele tinha um pouco mais de estrutura.
KIRKPATRICK: Acho que a qualidade de tantas roupas suas que estão aqui embaixo é impressionante. Dá a sensação de que já não fabricamos peças que consigam durar tanto tempo assim.
LAUPER: Não. Já não fazemos coisas assim. A costura é muito diferente. E, mais uma vez, a indústria da moda está sendo pressionada. Tudo precisa ser fabricado cada vez mais barato, mais barato e mais barato.
Às vezes, você veste uma peça e ela é bem-feita. Outras vezes, é uma roupa cara, mas malfeita. Você sente que está levando gato por lebre. Mas e as pessoas que confeccionam essas roupas? Quanto elas recebem?
KIRKPATRICK: Com certeza.
LAUPER: E também me sinto mal quando penso no que aconteceu com os profissionais criativos.
KIRKPATRICK: Estamos consumindo essas pessoas num ritmo absurdo.
LAUPER: Elas são pressionadas a produzir 12 desfiles por ano, o que é desumano. E o que acontece depois? O café deixa de fazer efeito, você toma alguma coisa, dão um pouco de açúcar para você... e, depois de um tempo, nem isso funciona mais.
KIRKPATRICK: A vida acelera até chegar a esse ritmo de produção impossível.
LAUPER: Ritmo de produção impossível. Sim.
KIRKPATRICK: Nós dois também somos artistas, então sabemos que a criatividade não funciona de acordo com um cronograma.
LAUPER: Não.
KIRKPATRICK: Ter 12 desfiles por temporada não significa que você terá 12 grandes ideias para 12 grandes coleções.
LAUPER: Ah, fala sério!
KIRKPATRICK: É impossível!
LAUPER: E isso vale para a moda, assim como para a música. As canções simplesmente surgem. E, quando não surgem, você precisa dar um tempo.
KIRKPATRICK: Certo. Também adorei o que você disse antes sobre a autoexpressão dos anos 1980 e como estamos perdendo isso hoje em dia.
LAUPER: Bem, estou falando da individualidade. Se você não se apega a isso, o que está fazendo? Nunca tive vontade de me tornar uma ovelha, de seguir o rebanho. Sabe? De ser alguém que segue os outros pelo resto da vida.
Tive um tempo livre neste verão, então fui a museus. Fui à Espanha e visitei o Museu Balenciaga. Vi diferentes coisas relacionadas à moda. Por exemplo, no Brooklyn, há uma estilista fabulosa que...
KIRKPATRICK: Ah, Iris van Herpen?
LAUPER: Sim.
KIRKPATRICK: No Museu do Brooklyn, entrevistei-a para aquela exposição. Ela é incrível.
LAUPER: Sim. E ela também trabalhou para McQueen.
KIRKPATRICK: O que ela faz com a tecnologia e os processos de fabricação... Não conheço ninguém que esteja explorando tanto os limites dos materiais quanto ela.
LAUPER: Ah, não! Há jovens fazendo coisas incríveis. Eles só precisam ser incentivados. E é disso que se trata: inspirar as pessoas. É isso!
Lembrem-se da individualidade, porque é daí que vem a criatividade. Você não vai pensar como outra pessoa, nem vai ser igual a outra pessoa.
A grande lição que aprendi nos anos 1980 foi olhar para todas as pessoas que estavam nas paradas de sucesso comigo e perceber que eu não era como elas. Achei que isso seria o meu fim. Por que eu precisava ser tão diferente?
Mas não foi. O que me fez continuar foi a perseverança. Foi isso que me fez lembrar: “Você é uma artista e, às vezes, vai trilhar um caminho em que não haverá ninguém à sua frente. Paciência! Continue andando. Você encontrará o seu caminho”.
KIRKPATRICK: Sim. E as pessoas também vão encontrar você. Você se identifica com isso.
LAUPER: Os ícones ressoam uns com os outros.
KIRKPATRICK: Com certeza. Eu estava pensando nisso enquanto você explicava suas escolhas de maquiagem ou o modo como amarrava o tule na cabeça para dar mais volume ao cabelo.
É como se você estivesse tentando corrigir características que considerava imperfeições ou diferenças em si mesma, mas, na verdade, essas escolhas faziam com que elas se destacassem ainda mais. E foi isso que acabou tornando esses elementos icônicos.
LAUPER: Sim, sim.
KIRKPATRICK: É assim que tentamos esconder quem somos. No fim das contas, são justamente essas características únicas que nos definem.
LAUPER: Bem, eu precisava parecer maior. E queria cores porque, quando você gira pelo palco e olha para ele, vê as cores. Eu estava sempre me movimentando. Então, quando você usa camadas de cores, isso faz uma grande diferença. Porque você também está pintando. Você é arte viva!
KIRKPATRICK: Exatamente. E você está criando um efeito e uma imagem completa para o público.
LAUPER: Você está criando arte e música. E era isso que eu sempre quis fazer.
KIRKPATRICK: Sim. Sua visão daquilo que estava criando parece muito abrangente, como se você integrasse tudo.
LAUPER: Eu sempre quero experimentar e ver o que acontece. Pergunto: “Podemos mudar isso para cá?”. Se não funcionar e ficar uma porcaria, podemos sempre colocar de volta no lugar.
KIRKPATRICK: Isso retoma o que você disse antes sobre simplesmente fazer perguntas. Receber o feedback e evoluir a partir dele. Sinto que, às vezes, os artistas ficam muito presos às próprias ideias ou à percepção que têm de si mesmos.
LAUPER: É. Você não consegue ler a própria imprensa. Sempre brincávamos, dizendo: “Vá em frente, conte a eles quem você acha que é”. É quase como dizer: “É, eles não entenderam a música. Conte a eles o que você achava que ela estava dizendo”.
Mas, veja, é uma jornada.
KIRKPATRICK: Sim.
LAUPER: Eu queria compartilhar isso neste momento. Achei importante abrir o jogo e mostrar tudo isso ao público. Além disso, já não uso essas roupas. Não dá para continuar usando as mesmas roupas que você usava naquela época.
KIRKPATRICK: Claro. Você evolui.
LAUPER: Simplesmente não quero ser conservadora, só isso. Não vou seguir esse caminho. Sempre abracei a cultura boêmia, porque é onde os artistas vivem.
KIRKPATRICK: Sim, com certeza. Também percebi isso em mim mesma à medida que fui envelhecendo. Tenho me esforçado mais para garantir que as pessoas saibam que não sou uma pessoa convencional.
Às vezes, acho que me visto de maneira muito certinha e, por isso, uso óculos mais extravagantes para comunicar às outras pessoas: “Este é um espaço seguro”.
LAUPER: Você poderia adotar um estilo punk arrumadinho.
KIRKPATRICK: Eu era uma punk arrumadinha no ensino médio. Havia um código de vestimenta, mas eu não queria parecer com todo mundo, então adotei o estilo punk. Isso no interior de New Hampshire, o que era interessante.
LAUPER: Ah, New Hampshire! Sempre achei agradável, na Nova Inglaterra, ouvir todo mundo falando como nos comerciais da Pepperidge Farm.
Mas, depois de um tempo, percebi que simplesmente não me encaixava. Há artistas por lá. Quando morei em Vermont, havia toda uma cena de bluegrass acontecendo, e era incrível. Mas eu também não fazia parte daquilo.
KIRKPATRICK: Exatamente.
LAUPER: E não fiquei lá por muito tempo porque, primeiro, sou alérgica ao frio. Segundo, queria ver o oceano. Não consigo viver sem ele. Cresci com o oceano bem aqui, perto de mim.
KIRKPATRICK: Também cresci perto do oceano. Sou grata por minha mãe ser artista e por ter tido nela uma válvula de escape, porque concordo com você. Eu sentia que aquelas pessoas não eram como eu.
LAUPER: Essa não é a minha tribo.
KIRKPATRICK: Exatamente! “Fui parar no lugar errado”.
Mas ter minha mãe por perto, vê-la se expressar e ser diferente... Só isso já abre a mente de uma criança. E o mesmo acontece quando olhamos para suas roupas. Acho que elas abrem a mente das pessoas e as fazem pensar: “Nossa, isso é possível!”.
Também mostram que existem peças de grife naquela coleção, mas que nem tudo precisa ser de grife.
LAUPER: Sim. É como se você estivesse usando um casaco Dolce [trecho pouco claro no original] e pensasse que seria legal ter um chapéu-coco que não fosse apenas da mesma cor, mas que também tivesse penas. Isso está dentro do seu universo criativo, até porque ainda vendem cola!
KIRKPATRICK: A Michaels ainda está aberta! Há cada vez menos lojas desse tipo, mas elas ainda existem.
LAUPER: Ah, é verdade. Há uma loja Michaels. Havia a Lee's Art. Existiam lojas de materiais artísticos. Hoje, já não existem mais lojas especializadas em pintura como antes.
KIRKPATRICK: Eu sei. Perdemos todas elas.
Ao organizar esta coleção, houve alguma peça que a surpreendeu por ainda estar guardada ou que você nem se lembrava de ter usado?
LAUPER: Bem, havia algumas peças que eu nem sabia que ainda tinha. Eu olhava e dizia: “Ah, não!”.
KIRKPATRICK: “Onde foi parar isso?”
LAUPER: Sim! Mas isso não aconteceu com as roupas, porque eu estava muito envolvida com elas.
KIRKPATRICK: Sim. Parece que você tem uma memória enciclopédica da maioria das peças que estão aqui.
LAUPER: Porque me lembro da cor do meu cabelo. Lembro-me da sessão de fotos. Eu estava envolvida em tudo aquilo. Estávamos criando tudo juntas.
[Cyndi folheia o catálogo de suas roupas e aponta para uma peça.]
Esta sempre foi a minha peça favorita. Tínhamos suspensórios, mas não eram suspensórios comuns. Eram os mais curtos, porque, quando você usava um espartilho, precisava de suspensórios para mantê-lo no lugar. Caso contrário, seus seios ficavam de fora o tempo todo!
Então, esse foi um momento fabuloso. E olhe só: está vendo como as bolinhas combinam com a estampa floral?
KIRKPATRICK: Eu sei! Você tem um talento para combinar estampas que não sei se eu conseguiria reproduzir.
LAUPER: Fiz um show uma vez, e não sei se ela tem essa peça aqui. Todas as ceroulas estavam enroladas. Nunca usei a minha esticada, mas olhe só como é fabulosa!
KIRKPATRICK: Sim, incrível!
LAUPER: E uma criança ainda poderia usar isso hoje em dia.
KIRKPATRICK: Com certeza.
LAUPER: Com um chapéu de praia enorme!
KIRKPATRICK: Totalmente! Consigo imaginar. [Cyndi vira a página.] Olha, ali está o chapéu de praia!
LAUPER: Mas aquele é o chapéu de praia dos anos 1980. Não consigo encontrá-lo, mas eu tinha uma camisa com estampa de lenço e uma calça xadrez azul. Usei as duas peças juntas e fui cantar.
A pessoa que escreveu a crítica ficou tão incomodada com a minha roupa que foi justamente sobre isso que escreveu!
KIRKPATRICK: “Não conseguia nem ouvir a música”.
LAUPER: “As roupas dela eram tão chamativas que eu não conseguia ouvi-la cantar”.
Outra mulher disse a mesma coisa certa vez. Fui ao centro da cidade para ver Jimmy [Webb], na loja Trash and Vaudeville, quando ela ainda existia.
KIRKPATRICK: Sim.
LAUPER: Jimmy era fabuloso. Eu disse: “Vou cantar com a Boston Pops”, e blá-blá-blá.
Meu cabelo estava preto e branco. Ele usava uma roupa prateada e curta, e eu estava de meia-calça arrastão.
E sabe o que aquela mulher disse? “Bem, as roupas dela eram tão chamativas que eu não conseguia ouvi-la cantar”.
E eu pensei: “Quem são essas pessoas? Isso é rock and roll!”.
KIRKPATRICK: Sim! E é só uma roupa. Você realmente não consegue enxergar além disso?
LAUPER: Rock and roll, não Madre Cabrini!
KIRKPATRICK: Como você deveria se apresentar? O que seria considerado apropriado?
LAUPER: Elas eram muito corporativas. Então, se você quisesse aparecer em determinada revista e fosse uma artista de rock de verdade, sem fingir que pertencia ao mundo da alta moda, não conseguiria entrar nessas revistas.
KIRKPATRICK: Certo.
LAUPER: E essa foi a desculpa dela.
KIRKPATRICK: “A roupa é chamativa demais”.
LAUPER: Honestamente, para mim, tudo bem. Afinal, aqui estou eu, ainda trabalhando!
KIRKPATRICK: Com certeza!
LAUPER: O que foi que Dolly Parton disse? “É muito caro parecer tão barata”.
KIRKPATRICK: Exatamente! Viva de acordo com isso!


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