Cyndi Lauper, Tommy Mottola e a luta pelo controle criativo: a história por trás de uma das fases mais difíceis de sua carreira
Quando se fala na carreira de Cyndi Lauper, é comum ouvir de algumas pessoas, que ela "desapareceu" após o enorme sucesso nos anos 80. No entanto, essa narrativa simplifica uma história muito mais complexa. O que aconteceu, na verdade, foi uma combinação de mudanças na indústria musical, disputas internas dentro da gravadora Sony Music e a determinação de Cyndi em preservar sua liberdade artística.
Recentemente, durante sua participação no podcast "Wiser Than Me", ao qual você pode ler a tradução em português na íntegra, clicando aqui, apresentado por Julia Louis-Dreyfus, nossa diva revisitou esse período delicado de sua vida e revelou detalhes sobre como tudo aquilo afetou sua carreira e sua vida pessoal.
Logo no início da conversa, Julia Louis-Dreyfus comenta algo que sempre admirou em Cyndi:
"Uma coisa que sempre me impressionou em você é o quanto de controle criativo você se esforçou para manter na sua carreira."
Essa observação resume boa parte da trajetória de Lauper. Desde o lançamento de "She's So Unusual" (1983), Cyndi sempre fez questão de participar das decisões criativas envolvendo seus discos, videoclipes e imagem pública. Essa postura, no entanto, nem sempre agradava executivos da indústria.
Um dos episódios mais curiosos lembrados durante o podcast envolve a gravação do videoclipe de "The Goonies 'R' Good Enough", tema do filme Os Goonies. Julia perguntou sobre o famoso desentendimento criativo entre Cyndi e Steven Spielberg. Lauper explicou que jamais teve uma conversa direta para esclarecer o ocorrido.
Segundo ela, esperava encontrar um grande set de filmagem hollywoodiano, mas descobriu que boa parte das gravações seria feita utilizando chroma key (tela verde), uma técnica bastante utilizada pela MTV na época.
Na tentativa de expressar sua frustração, Cyndi comentou que esperava fazer "algo um pouco mais criativo". A frase, porém, foi interpretada como uma crítica direta ao trabalho de Spielberg.
Ela relembra que todos estavam almoçando quando fez o comentário. "Todo mundo parou de comer, olhou para mim, depois olhou para ele. Steven se levantou extremamente ofendido."
Hoje, olhando para trás, Cyndi admite que jamais quis desmerecer o diretor. "Penso nisso até hoje. Talvez eu devesse escrever uma carta para ele, pedir desculpas e explicar que não era isso que eu queria dizer."
Cyn ainda brinca dizendo que atualmente viaja sempre acompanhada por alguém do departamento de Recursos Humanos para ajudá-la a evitar situações semelhantes.
Esse episódio mostra um traço marcante de sua personalidade: Cyndi sempre foi extremamente espontânea. Muitas vezes, suas intenções eram mal interpretadas, criando conflitos que poderiam ter sido evitados.
Quando tudo começou a desmoronar
Durante o podcast, Julia pergunta sobre outro momento delicado: o lançamento do filme Vibes (1988), estrelado por Cyndi ao lado de Jeff Goldblum e Peter Falk.
Embora hoje considere o filme divertido, Cyndi admite que aquele período marcou o início de uma verdadeira tempestade em sua vida.
Segundo ela, seu então empresário e noivo, David Wolff, planejava que os dois se casassem em 8 de agosto de 1988. Enquanto isso, a imprensa começou a ridicularizar o filme, apelidando-o de Bad Vibes. Ao mesmo tempo, seu relacionamento entrou em crise. "Meu relacionamento desmoronou. Senti que minha carreira também estava desmoronando." Mas os problemas não pararam por aí.
A chegada de Tommy Mottola
Paralelamente à crise pessoal vivida por Cyndi, a indústria musical passava por uma das maiores reestruturações de sua história.
A Sony havia adquirido a CBS Records e uma intensa disputa pelo comando da gravadora colocava frente a frente Walter Yetnikoff, então presidente da CBS Records, e um executivo que rapidamente ganhava poder: Tommy Mottola.
Em sua autobiografia "Cyndi Lauper: Minha História", a cantora conta que apoiou Walter Yetnikoff durante essa disputa. Foi uma decisão da qual ela se arrependeria profundamente.
Segundo Cyndi, quando Tommy Mottola assumiu definitivamente a presidência da Sony Music, sua relação com a gravadora mudou completamente.
Ela afirma que seus projetos passaram a ser colocados "em banho-maria", recebendo muito menos investimento e divulgação do que antes. Foi justamente durante essa fase que nasceu o álbum A Night to Remember (1989).
Originalmente, Cyndi desejava seguir uma direção artística bastante diferente. No entanto, diversas decisões passaram a ser tomadas pelos executivos da gravadora, reduzindo significativamente sua autonomia criativa.
Talvez o trecho mais emocionante do podcast seja quando Cyndi descreve o ambiente dentro da gravadora após a mudança de comando. Ela relembra que começou a ver profissionais que haviam construído sua carreira sendo demitidos um a um. "Pessoas que trabalharam doze horas por dia comigo. Pessoas que nunca recebem reconhecimento. Quem recebe os aplausos é o artista, mas sem elas nada acontece." Ela explica que não conseguia suportar assistir aquelas pessoas sendo substituídas. "Partiu meu coração."
Sem citar Tommy Mottola pelo nome durante a conversa, ela descreve a chegada de um novo executivo como "um babaca machista" que assumiu o controle da situação. "Foi uma época muito, muito difícil. Eu simplesmente não conseguia lidar com aquilo."
Ao longo dos anos, muitos atribuíram o declínio comercial de Cyndi Lauper apenas ao desempenho de seus lançamentos no fim dos anos 1980.
Entretanto, tanto sua autobiografia quanto seu depoimento no podcast revelam um cenário muito mais complexo.
Ela enfrentava simultaneamente:
* o fim de um relacionamento amoroso e profissional com David Wolff;
* uma profunda reorganização dentro da Sony Music;
* a perda de pessoas importantes que trabalhavam ao seu lado;
* a redução de sua liberdade criativa;
* e um ambiente corporativo que já não refletia os valores nos quais acreditava.
Mais do que uma queda nas vendas, Cyndi viveu uma crise de identidade artística dentro de uma indústria que passava a privilegiar estratégias comerciais cada vez mais rígidas.
Ainda assim, sua trajetória demonstra uma característica que sempre a diferenciou: a recusa em abrir mão de sua autenticidade.
Mesmo enfrentando pressões de grandes executivos, conflitos internos e mudanças na indústria, Cyndi Lauper permaneceu fiel à artista que sempre quis ser. Talvez esse seja o verdadeiro motivo pelo qual sua carreira continua sendo admirada décadas depois: não apenas pelos sucessos que conquistou, mas pela coragem de defender sua visão criativa, mesmo quando isso teve um custo elevado.


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